Drones vs Saints: nada além de um resumo

drones-_-19-de-outubro

Uma hora e 37 minutos desse domingo, dia 13. Parei de jogar Super Metroid, levantei da cama e fui fazer um café. Não era a hora mais propícia para dar espaço a cafeína. Na real, eu não sabia o que fazer. Fiquei com medo de não saber o que nem como escrever. Drones 32, Guardian Saints 29. Então reparei que, de fato, sequer havia o que digitar. O que aconteceu não é algo que consiga ser descrito. A frase é clichê, mas é só uma frase. O jogo foi o que foi e o máximo que se pode exigir daqui é um resumo.

O confronto foi realizado numa tarde de novembro. Começou às 15 horas do dia 12, num estádio de soccer. A oval alçou o primeiro voo no azul celeste quando as arquibancadas da baixada ainda recebiam torcedores. O sol era forte e o gramado já esteve melhor, embora não estava ruim também. Na verdade, tudo era propício ao football. O jogo foi o que foi e o máximo que se pode exigir daqui é um resumo. Porque o que realmente aconteceu, a substância da coisa toda, só quem entrou no 19 de Outubro e esperou o cronômetro zerar entende.

Os zangões iniciaram bem. Conseguiram o primeiro touchdown nos minutos iniciais do primeiro quarto e desperdiçaram o ponto extra. Teve, porém, retaliação. Veio o primeiro TD curitibano e a execução bem feita duma conversão de dois pontos. E rapidamente, novo TD dos Saints. Dessa vez, com insucesso na busca por dois pontos a mais. Logo o placar inverteu. Mandantes seis. Visitantes… quatorze. Quem acompanha o Drones imagina o que passou na cabeça dos jogadores. A classificação já tinha batido na trave em outras ocasiões. Ficou evidente a instabilidade no ânimo aurinegro quando o Guardian Saints emendou o terceiro TD numa incrível corrida dumas 98 jardas. O CAMPO INTEIRO! Ponto Extra na conta. 06×21.

Quem acompanha o Drones imagina o que se passou na cabeça dos jogadores. Não era hora de baixar a guarda, de ceder às dúvidas, de sentir a pressão. A hora da reação havia chegado. Antes do final do segundo quarto, os ijuienses conseguiram invadir pela segunda vez a endzone curitibana. A conversão de dois pontos falhou. Só que o placar dava esperança. O intervalo chegou e os mandantes perdiam por 12 a 21.

Ouvi os head coaches.

Eduardo Mundstock foi breve:

A diferença é de nove pontos. O jogo está totalmente aberto. Vamos melhorar o ataque, melhorar a defesa e ganhar esse jogo”.

Alberto Filho, dos Saints, tinha noção do perigo:

A vitória pode ir para os dois lados. Contra o Corupá tínhamos quinze pontos de diferença e a gente acabou perdendo (…) Eles vão vir com tudo, querem muito a vitória e estão na frente da torcida”.

Assim aconteceu. Começou o terceiro quarto e… TOUCHDOWN DRONES, seguido duma conversão de dois pontos. A diferença de nove unidades no placar caiu para uma. A virada, porém, chegou somente na última parte do jogo. Podia ter sido mais tranquilo.

Ninguém esperava que a situação fosse ficar tão tensa, principalmente quando Dionatan Machado se infiltrou na endzone rival e garantiu a virada. Falhou a conversão de dois pontos e, então, Drones vencia o Guardian Saints por 26 a 21. O tempo passou. A torcida grunhiu com vários erros das equipes. O jogo amornou. Ficou chato. O play by play se resumia a uma alternância de false start para um lado, false start para o outro. Sobe cinco jardas, desce cindo jardas num looping enfadonho. Ninguém imaginava!

Devagar – porque o jogo era chato – o tempo escoou até restarem dois minutos de embate. Aí os corações de uma arquibancada inteira foram testados. Ninguém imaginava. GUARDIAN SAINTS MARCA OUTRO TD E É BEM SUCEDIDO NA CONVERSÃO DE DOIS PONTOS. Sobrava 1 minuto e 50 e poucos segundos de jogo e a visita vencia. 29 para lá, 26 para cá. Hora do tudo ou nada.

Nesse pequeno espaço de tempo, os Drones conseguiram dois first down. Eu não lembro direito de muita coisa. O vento no 19 de Outubro esfria quando a tarde começa a se aproximar da noite. Que vento? O sol teimava em manter tudo aquecido e o ar fazia pressão nos ombros. Mas a torcida conseguiu ficar em pé. Cinquenta segundos para o fim. O nome do time mandante começou a ser cantado. Quarenta e cinco segundos. As mãos tremiam enquanto braços esticados batiam palmas, que ecoavam sobre umas quatro centenas de crânios. E naquele mesmo azul celeste em que a oval decolou às 15 horas, ela decolou de novo de algum lugar no meio do campo de ataque mandante, impulsionada pelas mãos de algum troll. Na sua trajetória parabólica encontrou um par de mãos enluvadas na esquina da endzone, já dentro da endzone. Faltavam 35 segundos. Touchdown.

placar-final

A única coisa que as pessoas faziam quando o jogo acabou era sorrir. Havia muita coisa a se dizer, a conversar. Mas só riam. Não que faltassem palavras e também ninguém esqueceu de como era pronunciá-las. As cordas vocais é que explodiram. Nenhuma aguentou tamanha alucinação. Berrou o 19 de Outubro. As lágrimas também caíram. Muitas. A história das duas equipes até os 35 segundos finais era mesma. Mudou rápido. Porém, não faltou empatia. Vi vários jogadores aurinegros chorando junto dos Saints. Aquela dor era conhecida, embora agora não passasse disso. Uma conhecida. Os zangões experimentavam um novo sentimento e essa nova experiência resultou tão somente em mais lágrimas.

Do outro lado, um ciclo encerrado. Um time que vendeu caro a classificação. Eu não queria vender para ninguém”, lamentou o head coach do Guardian Saints antes de eu começar a entrevista com ele. Um time guerreiro, surgido na periferia, alicerçado num projeto social. A equipe de Curitiba sofreu com vários desfalques. Alberto Filho – o treinador – fardou e foi a campo. Supriu a carência de peças para o embate em Ijuí. Mesmo triste, verbalizou a consciência que teve o Drones em sua trajetória e que o levou a classificação:

O que vem para frente é consequência do que a gente fez para trás”.

Embora no contexto da entrevista a frase ressalta erros que o Saints cometeu no decorrer de sua trajetória, esse mesmo pensamento trouxe o Drones até a semifinal. Venceu divisões internas. Venceu a incapacidade de marcar pontos. Venceu a sequência de derrotas e ainda batalha contra a indiferença. Na primeira apresentação dos zangões na baixada, um senhor assentado sobre o concreto da arquibancada social e trajado com uma camisa dum time da dupla grenal gritava para alguém:

São loucos. Essa coisa é coisa de maluco”.

O que vem para frente é consequência do que foi feito lá trás. Cada pedaço que arrancaram do Drones em cada derrota e em cada crítica (que ainda acontecem) foi um degrau para a ascensão atual. Alberto Filho colocou seu cargo à disposição da direção do clube.

Vamos olhar para frente. Amanhã com a cabeça fria, o olhar é sempre para frente”.

Entrevista com Alberto Filho, HC do Guardian Saints

Renan Jung, presidente do Drones, ressaltou que o time precisava duma partida dessas.

A gente acredita muito no potencial de cada atleta, mas essa maturidade a gente nunca precisou mostrar. Hoje foi necessário [mostrar] e o time conseguiu”.

Na próxima semana, dia 19, ocorre uma revanche. Agora como visitante, os ijuienses enfrentam o Miners em Criciúma, única equipe que venceu o Drones na IV Copa Sul. A equipe vai realizar um treino leve na terça-feira (15). Viaja na sexta-feira (18). Para o HC Mundstock, esse jogo ocorre num ótimo momento para o Drones. Renan Jung ainda salientou que no duelo anterior, o favoritismo estava para o lado dos zangões e, nesse momento, a situação inverteu. Na entrevista, Mundstock e Renan Jung comentam também a tensão do jogo e a presença da torcida no estádio 19 de Outubro.

Entrevista com Eduardo Mundstock e Renan Jung

O que aconteceu não é algo que consiga ser descrito. O jogo foi o que foi e o máximo que eu consegui aqui é um resumo. São 03h58min do dia 13 de novembro de 2016.

comemoracao

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